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A cultura do emagrecimento e a lógica do ganho fácil

“Trabalhávamos juntas; quatro anos, todo dia no hospital. Depois de três anos sem vê-la, assim que a reencontrei, feliz, ela me chamou para ir à sua casa, seu espaço. Achei que era uma chance de conversarmos, contarmos histórias. Foi entrar e perceber a loucura em que ela tinha se enfiado, caixas e caixas de produtos espalhadas pela sala, pelo quarto, até no banheiro, muitas com marcas de adulteração na validade. O tal espaço dela era onde pessoas iam tomar chás e shakes e, provavelmente, onde ela desovava parte do material vencido. Em três horas ali, em nenhum momento ela perguntou como eu estava, o que tinha feito esse tempo todo, nem sobre meu filho, seu afilhado. Era apenas uma conversa tentando me convencer a vender aquilo, a entrar naquela loucura junto. E eu entrei”.

O relato acima é de uma enfermeira de Sorocaba. A colega a quem ela atribui tê-la arrastado para sua ‘loucura’ é também profissional de saúde e antes da carreira civil, serviu no exército prestando serviços em sua área de formação. Ana, diz ter perdido mais de vinte mil reais em oito meses em que insistiu em revender produtos para emagrecimento e bem estar de uma conhecida marca americana. Ocorre que, para lucrar, não bastava a venda das embalagens, três ou quatro vezes mais caras que seus similares comercializados em supermercados.

A lógica no negócio estava em conseguir mais gente para vender o produto, que ficariam em linhas abaixo dela e de onde lucraria uma porcentagem. A famosa estrutura de pirâmide, segundo órgãos financeiros.

“Me falaram que eu ganharia mais com as porcentagens das pessoas que estavam abaixo de mim que com a venda. Eu acreditei e convenci mais seis pessoas do meu trabalho e uma cunhada que não fala mais comigo.”

O relato não é algo isolado. Na internet são inúmeras as reclamações quanto às práticas da empresa em questão, a Herbalife. Vão de dinheiro perdido com a compra de estoques absurdos de shakes e chás que encalharam – afinal, quanto mais gente vendendo, maior a concorrência e menor a possibilidade de lucro dos chamados consultores – à drástica mudança de comportamento dos que se iniciam no negócio. Ana avalia isso em seu relato, preservando sempre o nome da amiga, “ela tornou-se outro pessoa, era o dia todo falando apenas da empresa e dos milagres dos produtos. É só abrir o perfil dela (no facebook) e tem até indicações do quê tomar para substituir alguns remédios, ela não é médica, não é nutricionista, não podia colocar ninguém em risco”,

Nas redes sociais os relatos ganham corpo. São centenas de postagens que vão de histórias de ruína financeira causada pelo esquema de pirâmide de que a empresa é acusada, à consultores sugerindo a suspensão de tratamentos médicos e sua substituição pelos milagrosos produtos da companhia. Em uma postagem no Facebook, a internauta identificada como Pat Brezoski Schattschneider diz que, em período pré-cirúrgico, teria ouvido de um consultor da Herbalife “te livre da cirurgia com a gente! Os médicos não sabem o que falam”

 

Como funciona o esquema da pirâmide financeira

A Herbalife é uma das inúmeras empresas que adotam um funcionamento apresentado como “marketing multinível”. Conforme especialista, é um nome pomposo para caracterizar a pirâmide. Pessoas são convencidas a atuarem como consultores de vendas, ou seja, adquirem os produtos da empresa e devem vendê-los. Não são sócios formais da companhia e nem trabalhadores com vínculos claros e direitos assegurados. Como os produtos são caros – e registre-se, não há uma única reclamação quanto a qualidade e eficiência deles – já existe dificuldade natural de vendas.

Os tais consultores são orientados a convencer outras pessoas. Amigos e colegas de trabalho são alvos preferenciais a também entrarem no esquema, igualmente comprando produtos da companhia e revendendo. Quem entra estaria abaixo dos demais, formando uma linha da pirâmide. Por sua vez convenceriam outros, que estariam logo abaixo em nova linha. A pirâmide tomaria forma e quem está no topo receberia porcentagem da venda de quem está abaixo, ou seja, o ganho, quando vem, não está ligado à venda direta dos itens produzidos pela empresa, está concentrado nos proventos originados pelas vendas da base do esquema. Assim, quem está na parte de cima, efetivamente ganha. Pode chegar a ganhar muito. Quem está no segmento de baixo se obriga a vender, endivida-se para adquirir novos lotes de shakes e chás que ficarão encalhados e que só farão o topo lucrar.

A parcela de ganhadores, os membros de cima, são cooptados e transformados em estrelas internas nos programas de vendas e treinamentos da Herbalife. São as pessoas que aparecem ostentando suas novas vidas, seus itens de luxo e dizendo para os outros – geralmente deslumbrados – de que tudo é possível. “Se eu consegui, você consegue”, esse é o mantra.

O convencimento psicológico adotado pela empresa em seus seminários e congressos é semelhante aos procedimentos adotados por igrejas evangélicas em suas campanhas por dízimos e milagres. O milagre vendido pela Herbalife? Enriquecimento fácil e disponível para todos.

“Quando peguei aquela quantidade de produtos e não consegui vender, me senti derrotada, era como se eu estivesse errada”, diz Ana, a enfermeira de Sorocaba, no interior de São Paulo. O choque de realidade de quem entra no esquema, não vende e se compara aos grandes vencedores dos congressos internos da empresa é evidente. Muitos se sentem inferiorizados e entram em depressão.

Dra. Erika Chaquian (crédito: arquivo pessoal)

Com quatro espaços próximos ao seu local de trabalho, a psicóloga Erika Chaquian, de Porto Velho, Rondônia, e que atua no Ministério Público local, é enfática “a frustração ocorre quando algo planejado não acontece, quando “não dá certo”.  Esse é um sentimento causado pela dificuldade de lidar com o que não saiu como esperado, como não atingir uma meta, não ir bem na prova, e outras questões.  Quando envolve perda financeira, pode provocar uma desestruturação emocional, sentimento de desesperança, tristeza, desespero e depressão”.

Ainda segundo a especialista, “a depressão é um quadro clínico que afeta o psiquismo do indivíduo e demanda tratamento psiquiátrico e acompanhamento psicológico.  As crises financeiras aumentam a possibilidade de surgir alguma alteração emocional que além da depressão, pode ser: crise de ansiedades, de estresses, consumo abusivo de álcool e até tentativas de suicídio”.

 

Herbalife deixa veganos e vegetarianos irritados

Os vegetarianos e veganos formam outro grupo incomodado com a Herbalife. Alguns apontam que foram orientados por consultores a consumir itens da empresa como se fossem desprovidos de carne e insumos de origem animal. Inicialmente nem os rótulos dos produtos vendidos traziam a informação clara da composição dos itens e só teriam sido mudados após a interferência da Anvisa.

A empresária Bruna Maranhão destaca, “muito triste ter um produto com a ideia de ser sem origem animal, como o Nutrev, e depois você vai ler os ingredientes, não só contém leite de vaca, como peixe. Eu investi um valor considerável, jurando que não teria nada”.

 

Documentário americano demonstrou esquema de funcionamento da empresa

Lançado em 2016, o documentário Betting on Zero, que pode ser traduzido por algo como “Apostando no Zero”, apresenta a jornada do investidor americano Bill Ackman, movido por sua aposta para desqualificar e desacreditar a Herbalife para o mercado financeiro americano. Seu objetivo: falir a empresa reduzindo o valor de suas ações a zero. As motivações de Ackman são questionáveis. Embora se disponha a doar o dinheiro eventualmente obtido se sua aposta for vitoriosa – a queda acentuada das ações da Herbalife – Ackman é acusado de apenas querer se promover ao propor o desmonte de uma companhia que, em tese, gera empregos e possibilidades a milhares de pessoas pelo mundo.

Disponível pela Netflix, o documentário apresenta de forma detalhada, o esquema de pirâmides da Herbalife, bem como a contraposição dos representantes da empresa a muitas das questões apontadas, embora em cenas de arquivos, pois todos os executivos da companhia se recusaram a participar das gravações originais.

 

Efeitos no fígado já foi monitorado por pesquisador brasileiro

Os efeitos do uso prolongado de produtos da Herbalife já foram objeto de estudo do professor brasileiro Lázaro Nunes, das Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas (Metrocamp). Em 2015, Nunes demonstrou a relação dos produtos com problemas do fígado e a eventualidade de aparecimento de hepatite tóxica e alterações no sangue. Segundo o trabalho do pesquisador, ao menos trinta e três pessoas de várias partes do mundo, teriam apresentado problemas severos no fígado pelo consumo prolongado de itens da Herbalife entre 1999 e 2010.

Um dos efeitos demonstrados foi a elevação de até 58 vezes na quantidade da ALT (Alanina aminotransferase), e de 267 vezes da AST (Aspartato aminotransferase), ambas, enzimas do fígado.

Em entrevista para a Carta Campinas, Nunes explicou que o fígado controla a taxa de glicose no sangue, sintetizando proteínas e eliminando substâncias tóxicas do organismo. “Se uma pessoa tem alguma lesão hepática, ela pode ter dificuldades de coagulação e corre risco de sangramentos internos”. Destacou ainda que o consumo destes produtos somados à predisposições à doenças no fígado podem colaborar para o desenvolvimento de complicações.

À época a Herbalife havia informado, em nota, que nenhuma hepatotoxina havia sido descoberta em seus produtos. “Nenhuma autoridade governamental encontrou, ao longo dos mais de 30 anos de operação da empresa e após mais de 25 investigações envolvendo relatos de casos, alegando hepatoxicidade, qualquer razão para que fossem tomadas medidas regulatórias contra a Herbalife”. A nota destacava ainda que a empresa seguia a legislação vigente no Brasil e destacava seus padrões rigorosos de qualidade.

 

Empresa já foi multada por enganar consumidores

Em 2016 a empresa já foi condenada nos Estados Unidos por possíveis práticas enganosas contra seus consumidores, livrando-se, porém, da acusação mais grave de pirâmide financeira. Em acordo com a Comissão Federal do Comércio o valor estipulado foi de U$ 200 milhões.

Conforme a acusação, os consultores (vendedores) da empresa são orientados a comprar kits com valores elevados e angariar outros indivíduos para vendê-los e formar equipes abaixo de si para promover e continuar o negócio, caracterizando a pirâmide. A decisão diz que a Herbalife forçaria uma demanda de mercado que não existe, lesando os consumidores.

Conforme Edith Ramirez, então presidente da Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos, a empresa faria propaganda enganosa ao exigir que seus consultores abandonassem seus empregos para evoluir com o esquema. “A Herbalife terá que se readequar para pagar seus colaboradores pelo que vendem e não pelas pessoas que recrutam”, afirmou.

Questionamentos semelhantes são promovidos em outros países e por pessoas que se sentiram lesadas pela empresa.

 

Empresa não se manifesta

Procurada, a assessoria de comunicação da Herbalife não se manifestou a tempo. Contatada, a matriz da empresa indicou apenas que fosse consultado o domínio bettingonzero.com, aberto para contestar o documentário de mesmo nome.

 

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Publicado por Marcelo Adifa

Jornalista e escritor. Autor de diversos livros de comunicação e literatura.
contato: marceloadi[email protected]

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