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A República do Ódio e a chance perdida por Moro

Abrir mão de bons salários e benefícios, de tratamento privilegiado em ações judiciais e da frequente exposição da mídia não é algo comum. Ainda mais para quem acostumou-se a ter holofotes sobre si. Cria de um programa medonho, arremedo de experimento sociológico com público infantilizado, alçado à condição de representante de um segmento em efervescência e eleito deputado federal, o professor Jean Wyllys (PSOL/RJ) anunciou que irá abdicar de seu mandato legislativo para residir no exterior.

Para alguns ele é o primeira exilado político de uma nova ditadura em curso no Brasil, para outros, o primeiro covarde a fugir enquanto seu grupo prega resistência e mãos dadas. Um grupo, ainda mais imbecilizado que os demais, prega que Jean estaria escapando da justiça, prestes a descobrir sua participação no suposto atentado ao então candidato a presidente Jair Bolsonaro.

São dois artistas incríveis, Jean e Bolsonaro. Faces opostas da mesma moeda em que tudo se permite e discute menos o Brasil de verdade, tomado pelo desemprego, criminalidade e desesperança.

Reside, também, em Jean, traços da mesma intolerância que ele credita a Bolsonaro. Não se cospe no rosto de um homem. Muito menos no parlamento. Política se faz com apreço pelo avesso, tolerância à divergência e muito diálogo. Tem, é claro, sua importância como agente político, figura pública e representativa, embora sua margem de votos tenha sofrido de esquizofrenia nas últimas disputas: foi eleito pela primeira vez em 2010 com 13.018 votos (0,16% do eleitorado); em 2.014 obteve 144.770 (1,90% do total) e em 2018 obteve 24.295 votos, quase ficando fora da Câmara dos Deputados. Elegeu-se em razão do ótimo resultado de Marcelo Freixo, do seu partido. Algo parece ter acontecido para esse comportamento atípico do seu eleitorado. Muita gente ou quase nada, Jean representa alguém e tem os mesmo direitos e deveres de todos os que foram eleitos.

Ao renunciar ao seu mandato, Jean – já a maior vítima de notícias falsas no Brasil em todos os tempos – abre espaços para especulações. Colocou-se, espertamente, como ícone da esquerda ao vestir o manto de primeiro exilado dos novos tempos. Acho exagero, eu que tive familiares marcados pelo ferro quente das masmorras da ditadura e exilados em diferentes momentos. Não há ditadura no Brasil. Há acirramento e enfrentamento. Inclusive dentro do governo, em que Mourão nada de braçadas frente a um assustado e bestificado Bolsonado, vítima do DNA ruim que transferiu aos seus filhos, os Bolsoboys.

Contudo, e divergências à parte, Jean fez o jogo certo. Sentindo-se ameaçado pelas milícias cariocas – organização mais complexa que qualquer partido do crime no país -, a decisão de deixar o país é justa. Ainda mais com as suspeitas que figuras do poder central comandem o grupo criminoso. Enquanto estiver fora será o novo ícone de uma geração. Quase um Chico Buarque sem talento.

O que não poderia ter acontecido é um presidente da República, a mais alta figura da Nação e responsável por manter o equilíbrio de forças e a unidade do país, já muito comprometida, comemorar tal decisão. Ou um dos bolsoboys, em seus frequentes rompantes de debiloidismo, quase abrir champanhes em redes sociais. Em mais um momento o vice-presidente Mourão mostrou-se mais equilibrado e íntegro que Bolsonaro: lamentou o episódio, enalteceu a divergência de ideias enquanto elemento primário da democracia.

Erra, pois, a Polícia Federal e os órgão de Justiça do Governo Federal. Ao tomar conhecimento da decisão do deputado, Sérgio Moro, outrora super-juiz de primeira instância, deveria ter agido como Ministro de fato, e em ato republicano, ligado ao deputado, reunido relatos sobre as ameaças e colocado a Polícia Federal à sua disposição.

Sérgio Moro, o super-ministro de Bolsonaro que é sempre o último a saber das coisas

 Garantir condições para que alguém que fala mal de ti continue falando seria um movimento e tanto de um governo que nem bem assumiu e já está marcado por escândalos.

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Publicado por Marcelo Adifa

Jornalista e escritor. Autor de diversos livros de comunicação e literatura.
contato: [email protected]

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