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O que sobrou do céu

Marcelo Yuka era um dos principais letristas da música brasileira urbana, daqueles que mantém uma lucidez corajosa em meio ao caos da metrópole sem rosto e coração. Yuka sabia que a cidade é a nova fábrica e é nela que se dão muitas das lutas do nosso tempo. Por isso, usou a fé como jogo de cintura e, rebelde, desafiou o mundo escrevendo, com disposição assombrosa, em busca de uma paz com voz.

Yuka produziu uma poesia de combate incomum no Brasil, ao mesmo tempo lírica e popular. Suas frases, inscritas nas músicas do Rappa, tornaram-se gritos de guerra na boca de trabalhadores que enfrentam a batalha diária pela sobrevivência digna.

Seu texto cortante encontrou lâmina na voz de outro Marcelo, o Falcão. Ninguém cantou tão intensamente o que Yuka escreveu como Falcão. As palavras de Yuka encontraram no estilo indomesticado e no timbre desassossegado de Falcão seu canal superior de expressão. Depois que Yuka saiu da banda, o Rappa continuou sendo sucesso com a potência cosmopolita de seu dub/rock citadino. Mas perdeu a capacidade de fazer a crônica poética da vida suburbana do Rio de Janeiro, que gerava na banda uma alquimia especial entre arte e resistência cotidiana.

“Lado B Lado A”, o disco clássico deste encontro, foi lançado no apagar dos anos 1990, quando o neoliberalismo que dominava o Brasil à época já tinha produzido o que sempre produz: desigualdade, violência e desesperança. Naquele momento e hoje, a música de Yuka é uma mão estendida para aqueles que não desistem de ver as cores escondidas nas nuvens da rotina.

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