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Bolsonaro & Guedes: se a culpa é sempre dos outros, o que fazem no governo?

Zanzando pelas praias do litoral sul de São Paulo, onde descansa desde sexta-feira, Bolsonaro criou um “cercadinho” peripatético, onde vez ou outra fala com apoiadores e jornalistas, sempre separado por grades e seguranças. .

Com a mesma jaqueta preta fechada até o pescoço, desde que chegou, o presidente só não quer ouvir falar de problemas. Perde logo a paciência.

As 600 mil mortes? A crise hídrica? A inflação? O aumento na conta de luz e do gás? Nada, nunca é responsabilidade dele, a culpa é sempre dos outros.

“Quem quebrou a economia foram governadores e prefeitos, pergunta para eles. Querem botar na minha conta a economia?”, pergunta, inocentemente, fazendo-se de vítima, como se não fosse o principal responsável pela política econômica. “Bateram em mim até não poder mais no ano passado, a economia a gente vê depois. Estou vendo…”

Quem é, afinal, o responsável pela política econômica do governo Bolsonaro & Guedes?

Convocado para prestar contas à Câmara nesta quarta-feira, Paulo “offshore” Guedes embarcou sorrateiramente no domingo para Washington, onde vai participar de mais uma reunião do Fundo Monetário Internacional. E deu uma banana para o Congresso. Só volta no dia seguinte à audiência, marcada e confirmada na Câmara pelo líder do governo, Ricardo Barros.

Cada vez mais sintonizado com o chefe, o Posto Ipiranga ficou sem combustível e sem argumentos para explicar a implosão da economia.

“Guedes culpa comida e energia por inflação e diz que há alta de preços no mundo todo”, informa Thiago Rezende, na Folha.

Que beleza!, como diria o Milton Leite. Quer dizer que agora a culpa é do mundo todo, não dele, o todo-poderoso comandante da economia brasileira, por procuração de Bolsonaro, que sempre diz não entender nada desse assunto?

Se a culpa é sempre dos outros, o que esses dois ainda fazem no governo?

Só podem estar debochando da nossa cara, como o capitão sempre faz questão de mostrar quando abre a boca.

“Estamos na maior crise hidrológica (?) dos últimos 90 anos, todo mundo estava sofrendo com isso, inflação veio atrás, energia cara, agora isso tudo veio daquela política que vocês da imprensa apoiava, do fique em casa”.

Sob aplausos e risos dos apoiadores, quando os repórteres perguntaram sobre o enfrentamento da crise hídrica, ele deu de ombros, como se não tivesse nada com isso: “Não dá para fazer milagre. Eu liguei para São Pedro…”

Mas o que o irritou mesmo foi quando lhe perguntaram sobre os 600 mil mortos da pandemia, e repetiu três vezes: “Qual país não morreu gente? Qual país não morreu gente? Qual país não morreu gente? Responda! Deixa de… Olha, não vim aqui para me aborrecer, por favor”.

Os devotos adoraram a resposta do “Mito”, que se empolgou com as próprias palavras:

“Não me chame de negacionista porque, só em dezembro, em Medida Provisória, assinei um checão de R$ 20 bilhões para tomar a vacina”, alegou, como se o dinheiro fosse dele.

Assinou o cheque, mas continuou fazendo campanha contra a vacinação, ao mostrar seus perigos e atrasar a compra de imunizantes, para abrir caminho aos intermediários amigos, que passaram a circular livremente pelo Ministério da Fazenda em busca de bons negócios, vendendo gato por lebre, como denunciaram os senadores da CPI da Covid, que acabaram com a mamata.

Hospedado no hotel de trânsito do Exército no Forte dos Andradas, Bolsonaro ainda encontrou tempo para dar um rolê de moto e defender seu veto ao fornecimento de absorventes íntimos para mulheres carentes e estudantes pobres.

“Eu sou escravo das leis, eu não posso sancionar uma coisa, se não tiver fontes de recursos com responsabilidade. Estaria respondendo a um impeachment agora”.

Não, Bolsonaro não precisa se preocupar com isso. Esse perigo ele não corre, por mais leis que desrespeite, porque Arthur Lira está lá, no alto comando do Centrão, para garantir sua impunidade. Não será por fornecer absorventes que esse governo vai cair.

Do jeito que vai, com Bolsonaro & Guedes terceirizando as responsabilidades pelas crises que abalam o país, vão acabar botando a culpa nos eleitores brasileiros _ no que, diga-se, não deixam de ter uma certa razão.

Até gostaria de mudar de assunto neste feriadão, mas eles não deixam. São uns pândegos.

Vida que segue.

Texto original de Ricardo Kotscho para o UOL.

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