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A (auto)crítica da razão cínica

Publicação de Leonardo De Marchi

A carta do empresário Léo Pinheiro, da OAS, é a penúltima peça do quebra-cabeça que revela a farsa grotesca da Lava Jato, de como ela nunca se importou com a “corrupção” e, sim, com interesses pessoais. Inclusive, valeu-se de tortura psicológica para forjar as “provas” que queriam, provas que, aliás, não existiam.

A Lava Jato também teve um efeito nefasto sobre a imprensa corporativa brasileira. Desde a primeira hora, muitos jornalistas assumiram as versões dos procuradores e do juíz de 1a instância como se fossem verdades. Mais do que isso: formou-se uma vanguarda de “jornalistas investigativos” que – e hoje está explícito – faziam assessoria de imprensa do MP de Curitiba.

Um desses jornalistas – que é, inclusive, filho de uma grande jornalista da mídia, que era crítica ao governo de então – escreveu um livro sobre a Lava Jato – que tem o juiz na capa, com uma clássica posse de herói – ANTES que as investigações fossem concluídas. O livro foi lançado em grande estilo, com a presença do juiz no lançamento, tirando fotos com a mãe e com o filho. Além disso, foi a base do roteiro de uma minisérie para a Netflix. Ou seja, tudo isso gerou muito dinheiro para eles – e sobre o quê? Mentiras obtidas pela OLJ da forma mais grotesca possível.

Desde essa época, desisti de dar aulas de ética (deontologia) e legislação para jornalismo, porque isso simplesmente não existe no mercado.

Ao mesmo tempo, ainda que sem visibilidade, outro fenômeno obsceno ocorria: os jornalistas que não concordavam com a narrativa e as práticas da Lava Jato e dos críticos do governo foram demitidos. A maioria dos jornalistas “petistas”, como foram rotulados – e diria que a maioria não era sequer petista – tiveram de trabalhar nos novos veículos digitais ditos independentes. Logo, foram tachados por seus colegas de “ex-jornalistas” porque não estavam nas “grandes empresas” corporativas, independentemente da qualidade do trabalho que praticavam.

O resultado disso é que o jornalismo corporativo virou um discurso de uma nota só e, ainda por cima, desafinada com a realidade. Uma parcela altamente significativa da população – justificadamente exausta de matérias mentirosas, do tipo “se permitirem a cobrança de uma taxa extra pela malas, as passagens aéreas vão ficar mais baratas” ou “se privatizar a empresa pública X, o serviço vai ficar melhor e mais barato” – voltou-se para o Youtube e/ou para o WhatsApp. O pessoal do WhatsApp foi capturado pelas fake news e vimos, no dia 12/09/21, quão delirante se tornaram. Mas é difícil dizer que seu ato não é justificado quando basta abrir qualquer página de grande jornal ou ver/ouvir seus programas sem perceber que, há muito, essas pessoas abandonaram o compromisso com o interesse público e passaram a defender interesses privados.

Até agora a autocrítica desses jornalistas não veio, nem virá. Pelo contrário, continuarão dizendo “se a direita e a esquerda nos criticam, é porque estamos fazendo nosso trabalho direito”. Sim, sem dúvida, estão defendendo interesses constituídos em detrimento da verdade e da ética de uma profissão que foi absolutamente implodida, a de jornalista.

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